quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Crise do Euro

Finanças derrubam premiês na Europa

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Nem denúncias de corrupção e nem escândalos sexuais. O que determinou a renúncia do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, anunciada na última terça-feira (8), foi uma crise de legitimidade política provocada pela recessão que atinge países europeus.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

A saída de Berlusconi coincide com a queda do premiê grego George Papandreou, por motivos semelhantes. Ambos os políticos são peças de um “efeito dominó” que já destituiu sete governos em três anos, liquidados pela pior crise financeira na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

No continente em que o Estado era um modelo de avanços sociais e econômicos, os pacotes de austeridade aplicados para conter os efeitos da recessão abalaram a popularidade dos líderes, sejam eles de esquerda ou de direita. Isso porque as medidas incluem cortes de benefícios e aumento de impostos.

Os gastos públicos nesses países, que já eram elevados antes da crise de 2008, tornaram-se críticos quando os governos tiveram que injetar trilhões de dólares no mercado para impedir a falência de bancos.

Em países como Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda o endividamento atingiu patamares intoleráveis na zona do euro. Na Grécia e na Itália, as contas para pagar superam o total de riquezas produzidas pelo país, medida pelo PIB (Produto Interno Bruto). No plano internacional, tal quadro aumenta o risco de calote dos credores e afasta investimentos, prejudicando ainda mais a economia.

Berlusconi resistiu a denúncias de abuso de poder e escândalos sexuais envolvendo menores de idade. Mas cedeu à pressão para deixar o cargo após a votação da Lei de Estabilidade, uma série de medidas adotadas para tentar reduzir o déficit público italiano.

O projeto foi aprovado no Parlamento, mas o premiê perdeu a maioria legislativa e, assim, a sustentação de seu governo. Sob forte desconfiança de que poderia reverter a situação econômica na Itália, o líder centro-direitista anunciou que deixaria o cargo.

A Itália já enfrentava problemas no equilíbrio das contas públicas desde o começo dos anos 1990. A crise econômica, contudo, elevou o endividamento, que representa hoje 121% do PIB, e o risco do país não ter mais como pagar suas dívidas, além de tornar o custo de empréstimos impraticável.

O país é a terceira maior economia da zona do euro, a oitava do mundo e a quarta maior tomadora de empréstimos no planeta. Em caso de calote, dificilmente a Itália poderia ser salva pela União Europeia (UE), como acontece no caso da Grécia. Para se ter uma ideia da gravidade da crise, as dívidas italianas somam 1,9 trilhão de euros, o que corresponde a 2,8 vezes as dívidas somadas de Portugal, Irlanda e Grécia.
 

Pré-sal

Vazamento no Rio revela despreparo de autoridades

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
O vazamento de milhares de litros de petróleo na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, evidenciou o quanto o governo brasileiro está despreparado para lidar com acidentes dessa natureza.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

O acidente aconteceu no Campo do Frade, localizado a 120 km do litoral fluminense, no dia 8 de novembro. Ainda não se sabe ao certo a extensão do desastre e nem o impacto à biodiversidade marinha e à pesca na região.

A multinacional Chevron do Brasil, que explora o campo, assumiu a responsabilidade pelo derramamento de óleo. No dia 23 de novembro, a ANP (Agência Nacional do Petróleo) determinou a suspensão das atividades da empresa no país até que sejam explicadas as causas e identificados os responsáveis pelo acidente.

A ANP também negou o pedido de abertura de um novo poço no Campo do Frade, que teria como objetivo atingir a camada pré-sal. A empresa americana explora 12 poços na Bacia de Campos e produz 79 mil barris diários.

A Chevron já recebeu multas de R$ 50 milhões e de R$ 100 milhões, aplicadas, respectivamente, pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e pela ANP. O Estado do Rio de Janeiro também entrou com uma ação civil pública para pedir indenizações de R$ 100 milhões.

Especialistas, no entanto, acham baixos os valores das multas: para as empresas, dizem, é mais barato correr o risco de poluir o ambiente do que investir em equipamentos caros de prevenção.

Para se ter uma ideia, o valor da multa do Ibama representa menos de 1% do plano de investimento de US$ 5 bilhões da Chevron no país, no prazo de dez anos.

O desastre aconteceu durante a perfuração de um poço de petróleo no fundo do mar. Segundo a petroleira, o derramamento durou quatro dias ? o poço começou a ser fechado dia 13 ?, e o óleo que continua vazando é ?residual? (20 barris de petróleo por dia).

A mancha de óleo se estendeu por uma área de 163 quilômetros quadrados, o equivalente a 16,3 mil campos de futebol. No último dia 22, a ANP informou que a mancha havia sido reduzida a dois quilômetros quadrados.

O volume vazado seria o correspondente a 2,4 mil barris (381,6 mil litros), de acordo com a Chevron. Dezenas de espécies de baleias, golfinhos e pequenos cetáceos que usam a Bacia de Campos como rota de migração podem ser afetados pelo óleo.

Em janeiro de 2000, 1,3 milhão de litros de óleo vazaram na Refinaria Duque de Caxias, da Petrobras, na Baía de Guanabara. Em julho do mesmo ano, outros 4 milhões de litros de óleo cru foram derramados da Refinaria Presidente Getúlio Vargas, em Araucária (PR).

Despreparo

A Bacia de Campos possui as maiores reservas de petróleo do Brasil e responde por 80% de toda a produção nacional do minério. Há quatro anos foi anunciada as descoberta de uma imensa reserva na camada pré-sal, o que tornaria o Brasil um dos principais produtores e exportadores mundiais de petróleo e derivados.

Há hoje 140 plataformas marítimas em atividades nas bacias de Campos, Santos e Espírito Santo, a maioria pertencente à Petrobras.

O vazamento no Campo do Frade serviu de alerta para a falta de fiscalização e de preparo do Estado em prevenir e conter desastres ambientais provocados por derramamento de óleo, na exploração de petróleo na camada pré-sal.

Como o pré-sal fica distante da costa, medidas de segurança envolvem custos mais altos e complexa logística na sua adoção.

No ano passado, após o desastre ocorrido no Golfo do México, um dos maiores vazamentos do mundo, o governo brasileiro se comprometeu em criar um Plano Nacional de Contingência para Derramamento de Óleo.

O objetivo do plano seria preparar uma estratégia de contenção de vazamentos de grandes proporções, evitando a degradação ambiental, contaminação da fauna e da flora marinhas e prejuízos à pesca e turismo. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o projeto está em fase de conclusão e será enviado ao Congresso para ser votado.